domingo, 11 de outubro de 2009

A Troca


A vida de Alan estava cada dia pior. Primeiro foi o carro roubado. Depois foi o término do namoro de dois anos com Juliana, a mulher que ele ainda amava. E agora para completar, perdeu o emprego.

A vida já não vinha sendo justa com ele há muito tempo. Sua infância foi sofrida demais.

Ele e sua mãe apanhavam quase diariamente do pai alcoólatra. No colégio era visto como um idiota somente porque não queria se enturmar com ninguém. Nenhuma garota olhava para aquele menino franzino com óculos fundo de garrafa, e os mais endiabrados queriam bater nele pelos motivos mais banais.

O resultado disso foi um ódio mortal por tudo e por todos. Parecia que a vida estava querendo isso desde o principio. Queria que esse ódio crescesse dentro dele.

Hoje ele não era mais um garoto franzino, tornara-se um homem forte. Aposentou os óculos - usava lentes.

Com seu cérebro bem trabalhado, conseguiu ganhar dinheiro suficiente para viver uma vida confortável. Mas nada disso parecia lhe trazer prazer.

Já era difícil segurar dentro de si o desejo de vingança por todas as humilhações que passou, e os últimos acontecimentos estavam servindo como uma gota d'agua.

Tudo o que ele queria fazer no momento era voltar no tempo e destruir todos os seus algozes, mas isso era impossível. O que passou, passou, e o único momento em que podemos fazer alguma coisa era agora, no presente.

Parou um tempo para refletir e percebeu que seu ódio poderia ter alguma serventia, afinal, quantas pessoas não sofrem nas mãos de verdadeiros monstros pelo mundo?

Mas para fazer qualquer coisa, precisava de algo que não possuía: poder. Poder para destruir e humilhar. Poder para aniquilar não somente o corpo, mas também a alma, exatamente como haviam feito com ele.

Ah, como essas idéias lhe davam prazer! Como era saboroso imaginar um estuprador gritando ao ser dilacerado pelas suas mãos! Como seria maravilhoso estraçalhar um assassino, após fazê-lo passar pelas piores humilhações!

E essas idéias que passavam como um filme em sua mente acabaram atraindo algo antigo e maligno. Algo que possuía todo o poder que Alan tanto almejava. Algo que poderia realizar toda sua fantasia sanguinolenta.

E assim, de um espelho que se encontrava próximo às costas de Alan, veio uma saudação sombria e fantasmagórica:

- Boa noite Alan. O que desejas é poder?

A voz parecia com um coro. Era como se várias pessoas falassem juntas em uma só voz. Era grossa, mas ao mesmo tempo sussurrante. Ele jamais havia escutado algo parecido em toda a vida.

O susto foi grande. O coração parecia que ia saltar pela boca. Seus membros tremiam, e as extremidades logo ficaram úmidas de suor.

Temia se virar para ver o autor da voz.

Quando finalmente tomou coragem para olhar, se deparou com seu próprio reflexo, que dizia:

- Posso dar-lhe o poder que necessitas para sua vingança pessoal, se me deres aquilo que mais desejo.

- E...e o que você quer? – Gaguejou Alan.

- Viver novamente! - Respondeu o reflexo.

O que seria aquilo? Estaria ficando louco? Estava dialogando com seu próprio reflexo.

- A minha vida? Você realmente quer viver esta porcaria de vida?

- Sim, desejo trocar todo o poder destrutivo que hoje possuo, por mais uma chance de viver.

- Me diga criatura, que poder é esse que me oferece? - perguntou Alan interessado.

- O poder de estar onde quiser, no momento em que desejar. O poder de destruir qualquer ser vivente que esteja ao seu alcance. Todo o poder de um Gaali.

- O que é um Gaali?

- Vivemos nos reflexos. Onde houver uma imagem refletida, ali poderemos estar, bastando somente desejar. Tudo o que estiver refletido, podemos destruir. Somos como Demônios confinados dentro dos espelhos. - Respondeu o Gaali.

- E porque abrir mão de tanta liberdade ao trocar por uma vida miserável? - Indagou Alan.

- Um dia fui humano como você, mas o ódio consumiu minha alma. A mesma oferta que lhe faço hoje foi feita para mim há muito tempo, e eu a aceitei. Matei todas as pessoas que odiava e me vinguei totalmente. Foi ai que percebi que nada mudou dentro de mim.

“Aquele sentimento horrível continuava a existir, mesmo com todos os alvos eliminados. Foram décadas de muito sofrimento. Só assim consegui enxergar que precisava aprender a perdoar e compreender. Mas agora era tarde. Só poderia voltar a viver e ter uma segunda chance se encontrasse alguém que aceitasse a troca que hoje lhe ofereço”.

- Perdoar e compreender? - indagou Alan - Como poderia perdoar pessoas malignas que mais parecem monstros com seus atos desumanos?

''Como posso compreender a motivação de um assassino de crianças? Como posso fechar os olhos diante das ofensas e perseguições que sofri em toda a minha vida? NÃO HÁ COMO!''

Alan parecia transtornado de ódio. A palavra ''perdão'' soava como uma ofensa a ele.

- Entendo seu lado. Já fui assim. Se realmente desejas do fundo de sua alma colocar em prática essa vingança, apenas diga: “Aceito a oferta deste Gaali”.

- Sim criatura, aceito sua oferta. Eu aceito a oferta deste Gaali! - Respondeu prontamente.

Um silêncio profundo tomou conta do quarto. Alan percebeu um pequeno sorriso nos lábios de sua imagem no espelho. As paredes começaram a parecer sombrias e assustadoras. Era como se vários olhos o observassem agora, de algum lugar que não conseguia ver.

Vozes começaram a surgir de todos os cantos do quarto. Eram como pequenos lamentos. Crianças choravam, adultos gritavam, mulheres gemiam e homens soluçavam, mas Alan não conseguia ver ninguém!

Voltou a achar que estava ficando louco. Tentava encontrar algo no cômodo, olhava para todos os cantos, mas o quarto continuava o mesmo. A sensação é que havia mudado.

Os sons ficavam cada vez mais altos, fazendo com que seu desespero chegasse ao máximo.

Começou a sentir um enjôo incomum, tão forte que o forçou a fechar os olhos. Aquela sensação era horrível, e ficava cada vez mais forte. Os olhos se mantinham cerrados devido a dor e o grande mal-estar.

Quando os abriu novamente, já não se encontrava mais em frente ao espelho.

A sensação horrível que havia dominado seu corpo já não estava mais presente. Se sentia bem, apesar de emocionalmente estar bastante abalado.

Nunca havia visto nada parecido com o local que estava agora, nem sentido seu corpo tão leve. Estava mergulhado em uma escuridão profunda, e diante de si havia uma fenda flutuante na qual podia ver seu antigo corpo estirado no chão de um cômodo tentando levantar-se.

Alan havia se tornado um Gaali.

Ouviu seu velho corpo gargalhar e dizer:

- Finalmente! Enfim voltei a viver depois de tantos séculos! Que nome usarei? Agora serei Arthur! Me chame de Arthur meu amigo, e desfrute bem da vida de um Gaali!

''Mas pelo que pude sondar de sua alma enquanto tinha meus poderes, você não é capaz de machucar nem uma mosca sequer, pois é ‘bonzinho’ demais!''

Aquilo foi como uma facada para ele. Era como se dissesse que ele era fraco, idiota e patético.

Alan ficou ali observando com ódio Arthur se arrumar, se olhar e se pentear. Observava a alegria que emanava de sua alma, e ficou admirado ao perceber que agora era capaz até mesmo de sentir o sentimento alheio.

Foi ai que captou a sensação de menosprezo vinda de Arthur em relação a ele, e percebeu que realmente era visto como um idiota.

A vida parece não gostar dos bons. O mundo condena os bons. As mulheres desprezam os bons. Parecia que só os que possuíam maldade, malandragem e violência eram admirados. Que só os que não respeitavam ninguém obtinham algum respeito. Que somente os cruéis e carrascos eram vistos como fortes!

Era como se a bondade fosse vista como fraqueza pelo mundo. Uma pessoa boa dificilmente conseguia sobreviver no meio de tanta perseguição.

O ódio foi crescendo de uma forma jamais sentida por Alan. Ódio do mundo. Ódio da vida. Ódio de Deus! Um Deus que permitia que seus filhos sofressem! Um Deus que fechava os olhos para o que os maus faziam aos bons! Um Deus que ignorava suas orações. Uma vida que ignorava sua dor. Um mundo que desprezava seu amor.

E quando viu que Arthur estava prestes a sair e voltar a ter uma vida normal, disse:

- Arthur! Quem sabe a vida não tenha alcançado seu objetivo?

- Qual objetivo?

- Me tornar menos ''bonzinho''!

Arthur arregalou os olhos temendo o que essa frase poderia representar. Engoliu seco ao ver que Alan, agora do outro lado do espelho, estava sorrindo de forma sombria. Mas já era tarde.

Os olhos de Alan estavam fixos em Arthur, que mesmo tendo perdido seus poderes, podia sentir o ódio emanando daquele olhar maldito. Começou a sentir seu pescoço ser apertado por uma força oculta. Não conseguia dizer uma palavra sequer.

Sabia exatamente o que estava acontecendo com ele. Já fizera várias vítimas utilizando o mesmo poder, a mesma força, o mesmo ódio.

Seu corpo começou a ser erguido do chão, como se uma corda estivesse amarrada a seu pescoço, puxando-o em direção ao teto.

Tentava com todas as forças implorar por sua vida, mas não havia forma de sair nenhum tipo de som da sua boca. Sentiu um grande empurrão, que arremessou seu corpo em direção a janela.

O vidro espatifou com um som ensurdecedor e foi espalhado pelo ar em inúmeros pedaços. Sua vida inteira passou diante dos seus olhos enquanto caía. Viu o chão parecer cada vez mais próximo, e com desespero tentava se segurar em qualquer coisa pelo caminho, mas nada estava ao seu alcance.

Finalmente sua cabeça encontrou o solo. Estava no décimo andar, e a queda foi fatal.

Alan se sentia aliviado, como se tivesse provado a si mesmo que não era um idiota. Como se tivesse provado à vida que podia ser mal, assim como ela queria. Mas não demorou muito para o ódio voltar a lhe dar agonia.

Precisava se vingar, e agora Alan tinha o poder que tanto desejava. Agora tinha o ódio amarrado seu peito como todos ao seu redor cultivaram por toda a vida. Agora havia se tornado algo que parecia ser seu destino: um Gaali.

No momento não importava para ele se a vingança traria paz ou sofrimento à sua alma. Seu coração estava completamente dominado por este desejo incontrolável.

Que o mundo agora colha seus frutos, pois o perdão foi completamente esquecido por este novo Gaali.

Que a justiça seja feita, que os responsáveis sejam severamente punidos e que a vida se arrependa amargamente de ter criado esse novo Diabo.


Casa Sombria - Contos de Terror

Autor - JulioSergioRJ@Gmail.com

Http://CasaSombria.blogspot.com

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A Cisterna


Este texto foi encontrado em um caderno perdido dentro de uma cisterna em um prédio abandonado de São Paulo:

'' Eu não sei dizer exatamente como vim parar aqui, mas sei o porque. A curiosidade muitas vezes pode ser fatal. Vou explicar aqui na esperança de alguém um dia encontrar este caderno e tentar me tirar deste lugar horrível.

Meu nome é Sérgio. Já não sei mais quantos anos tenho, mas em meu último aniversário comemorado eu tinha 16 anos.

No dia em que vim parar aqui, eu estava voltando do colégio junto com alguns amigos. Todos se dirigiam a minha casa para lanchar e conversar como fazíamos quase toda manhã, mas quando estávamos chegando minha mãe logo gritou da janela:

- Nada de visitas hoje. A cisterna do prédio está consertando e estamos sem água.

Foi como um balde de água fria. Todos foram embora, e eu tinha que ficar para almoçar com a minha família.

Fui para o pequeno pátio do prédio para andar um pouco e deixar o tempo passar até chegar a hora do almoço, e fiquei observando o movimento dos pedreiros que trabalhavam na obra da cisterna.

Ela se localizava em um cômodo praticamente abandonado nos fundos do prédio, e sua porta ficava sempre trancada com um velho cadeado.

Eu nunca havia visto como era por dentro, só sabia que a sala fedia a mofo. Eu realmente estava com muita vontade de ver a sala.

Aguardei mais um tempo e vi que os pedreiros haviam ido almoçar, e acabaram deixando a porta destrancada. Era tudo o que eu precisava para matar minha curiosidade.

Fui até o local. A porta de madeira era bem velha, e a pintura estava toda descascada. Fez um rangido horrível ao abrir. O cômodo era escuro e úmido. Eu não conseguia enxergar nada além de alguns centímetros de distância.

Entrei logo e fiz questão de fechar a porta, pois se alguém me visse aqui, era bronca na certa!

Não havia visto nada muito além do normal, e eu já estava prestes a sair. Foi quando escutei um barulho vindo do fundo da sala. Como estava completamente escura, tentei focar a visão o máximo que pude, a fim de enxergar o que havia ali. Não vi nada além de canos e paredes úmidas.

Cheguei mais próximo com passos curtos e leves, e o barulho se repetiu. Parecia algo andando, dando pequenos passos. Comecei a sentir um pouco de medo. A solidão e a escuridão são grandes aliadas do medo.

Tentei ser racional e logo imaginei se tratar de um rato, e eu nunca havia enfrentado um rato antes. Me lembrei que havia uma pequena lanterna pendurada em minha mochila, mas antes que eu pudesse pega-la senti algo em minha perna.

Gritei com o susto, me debati um pouco. Eu batia os pés desesperadamente! Se fosse um rato iria correr, ou já estava morto.

Quando parei, o silêncio voltou a sala. Eu olhava para o chão, mas não via nada. Foi ai que fui tocado na perna pela segunda vez.

Mas dessa vez algo agarrou minhas pernas, me derrubando antes que eu pudesse ter qualquer tipo de reação. Eu estava sendo arrastado pelo chão em direção a um canto da sala, mas não conseguia enxergar o que tinha pego minha perna.

Eu gritava muito, mas parecia que ninguém me ouvia. Quando estava chegando próximo a parede foi que consegui enxergar. Preferia não ter enxergado.

Era bem pequeno, uns 40 centímetros, parecia um humano muito magro e totalmente enrugado. Tinha um sorriso estranho no rosto, e agora gargalhava baixinho.

Quando chegamos ao canto da sala, meu desespero aumentou. Havia ali um buraco no chão mais ou menos do meu tamanho, e estava por trás de um monte de entulho.

Eu fui sendo arrastado por dentro do buraco. Tentava me segurar, mas a criatura tinha uma força incrível para o seu tamanho. Não sei por quanto tempo fui sendo puxado para baixo da terra, mas para mim pareceu uma eternidade.

Chegamos a um grande cômodo subterrâneo, que mais parecia uma caverna. Eu fui amarrado em um canto onde haviam vários objetos amontoados. Tinham cristais, copos, santinhos, estatuetas, sapatos e chapeis.

A criatura me deixou ali e voltou ao buraco de onde fui arrastado. Foi ai que meu desespero chegou ao máximo. Ele parecia estar tapando o buraco desde lá de cima.

Eu gritava, chorava e me debatia, mas a criatura só dava risadas ao ouvir meu desespero. Comecei a buscar uma forma de fugir dali. O cômodo era um pouco iluminado, mas eu não conseguia ver a fonte da luz. Havia desenhos estranhos na parede, e letras que eu jamais havia visto em lugar algum. Havia ar para respirar, mas era bastante quente e tinha cheiro de terra molhada.

Enquanto buscava uma forma de fugir dali, meu corpo se entregou ao desmaio.

Fui solto da corda assim que acordei, mas logo percebi que estava preso no pescoço com uma coleira de metal fixada na parede.

Os dias passavam lentamente, e eu era alimentado com um caldo estranho que parecia ser feito de barro com urina. A criatura saia por algum lugar que eu não conseguia ver, e sempre voltava com algum objeto. Um dia ele voltou com uma imagem de Jesus que havia em meu quarto.

Não tenho idéia de quanto tempo já se passou, mas sei que já me tornei adulto, pois a barba já não cabe mais em meu rosto e invadiu meu peito. Esse sofrimento parece não ter mais fim.

Consigo desenhar e escrever quando aquela coisa sai, mas sei que um dia as folhas do meu velho caderno irão acabar, e não terei mais nada de bom para fazer aqui.

Eu sei que estou bem próximo de casa, mas para mim é impossível chegar até lá. Ninguém veio me buscar até hoje. Meus pais já podem até mesmo estar mortos. Com toda a certeza eu fui esquecido aqui.

Esquecido como estes objetos.

Esquecido até mesmo pela morte.”

O prédio foi interditado em 1988 por problemas estruturais, e completamente abandonado por seus moradores em 1989.


Casa Sombria - Contos de Terror

Autor - JulioSergioRJ@Gmail.com

Http://CasaSombria.blogspot.com